Quando cheguei à Diretoria de Barragens, em janeiro de 2024, vivi um dos momentos mais desafiadores da minha trajetória recente como líder. Poucos meses depois da minha chegada, tivemos na obra da Barragem Doutor uma perda temporária de comunicação com instrumentos de monitoramento da barragem durante a madrugada. Como protocolo de segurança, as atividades foram imediatamente paralisadas até o restabelecimento da comunicação com os instrumentos. Apesar de a estrutura estar segura e sem qualquer indicativo de risco para a comunidade, um mal-entendido acabou gerando um movimento de insegurança. Um colaborador da obra compartilhou informações equivocadas fora do ambiente operacional, associando a paralisação das atividades a um suposto risco de rompimento da barragem. Em poucas horas, começaram a circular áudios na comunidade dizendo que a barragem apresentava risco e que as obras haviam sido evacuadas por conta da gravidade da situação. O cenário rapidamente ganhou proporção. Fomos acionados por sindicato, Defesa Civil, órgãos externos e lideranças locais. Na sequência, novos áudios começaram a circular, aumentando ainda mais a insegurança da comunidade e dos próprios trabalhadores da obra. Diante disso, precisei atuar rapidamente para evitar o agravamento da situação e restabelecer a confiança das pessoas. Estruturamos reuniões de alinhamento entre Implantação, Geotecnia, RC e equipes operacionais, apoiamos a criação de um comitê précrise, recebemos vistorias do Corpo de Bombeiros e das Defesas Civis municipal e estadual e reforçamos a comunicação com a comunidade por meio de materiais informativos e agendas presenciais. Um dos momentos mais marcantes foi a decisão de realizar um grande paradão na obra para conversar diretamente com cerca de 500 trabalhadores. Mais do que transmitir informações técnicas, era necessário gerar clareza, reduzir o medo e reconstruir a confiança naquele ambiente. Fiz questão de explicar pessoalmente o que havia acontecido, reforçar os protocolos de segurança existentes e mostrar que a paralisação demonstrava justamente o rigor dos nossos controles. A partir desse episódio, construímos diversos aprendizados relacionados à comunicação em cenários críticos, alinhamento entre equipes, preparação para gestão de crise e treinamento dos trabalhadores. Também evoluímos processos de comunicação interna e externa e fortalecemos a integração entre áreas técnicas, operação e relacionamento com comunidade. Habilidades utilizadas: Técnica: Conhecimento em gestão de risco geotécnico, protocolos de segurança operacional, monitoramento de barragens e tomada de decisão em cenários críticos. Humana: Escuta ativa, comunicação transparente, capacidade de acolher inseguranças das equipes e da comunidade, influência e geração de confiança em um momento de alta tensão emocional. Gestão: Coordenação de múltiplos stakeholders, atuação rápida em situação de crise, articulação entre áreas, priorização de ações críticas e condução de equipes sob pressão. Esse episódio foi importante para mim porque mostrou que, em ambientes de alta complexidade, liderança não é apenas tomar decisões técnicas corretas. É também conseguir construir confiança, dar direção em momentos de incerteza e transformar uma situação crítica em aprendizado coletivo.

Cristiane Sebastião